Sete de Copas: cinco de ouros, o mago e o às de espadas




Quem muito estuda pega o hábito de tomar palavras emprestadas. Não só palavras como a gente entende o termo, veja bem: a gente pega o raciocínio todo, compra a versão completa do entendimento da causa, toda ela encaixotada pela psique alheia, da primeira impressão ao derradeiro entendimento: eureka que vem de lá e não daqui de dentro, em resumo.


"- Ah, mas pra mim a opinião dele(a) fez todo o sentido!", dizemos, como que para justificar o pouco impulso à pesquisa própria, ao olhar científico que desbravaria a realidade com tanta curiosidade quanto o fazia a criança que um dia fomos. Porque desbravava ela, viu. Ô se desbravava.


Palavra boa essa, aliás: desbravar. Você vai ao dicionário e descobre que com essa atitude a pretensão é ir amansando o mundo, desembravecendo ele. O medo que dá um mundo bravo, porque desconhecido, imprevisível... esse eu conheço bem, e por isso não me culpo tanto, nessa sede pela "opinião de um especialista", como se essa, e não a reflexão que faço dela, fosse a solução pra braveza do mundo refletida nos meus olhos.


De volta à criança, porque ando interessada nela. Um jeito tipicamente seu de desbravar o mundo costuma ser na base da brincadeira, como quem tenta fazer cosquinha numa avó ranzinza. Brincando de perde e ganha, chorando pra depois rir de novo, talvez cresçamos em resiliência para lidar com o fato de que sim, de fato e às vezes cruelmente, a vida é um perde e ganha, talvez tão imprevisível - e ainda assim, estranhamente fascinante - quanto os mágicos copinhos do trapaceiro na praça, que sempre fazem sumir a bendita moeda.


Pra me arriscar só um pouco mais nesta brincadeira de escrever, acho melhor chamar a "opinião do especialista", que eu ouso entortar um cado com a minha pena: brincar é preciso, já que viver não é preciso. A cosmovisão infantil de imaginar brincadeiras e assim performar desejos, perdas e ganhos parece agora um treinamento muito inteligente para imprimir leveza, autenticidade e treinamento estratégico à forma como empunhamos nossas ideias neste mundo tão impreciso.


E se isso for verdade, que dizer? Em tempos de tanto enrijecimento de ideias, palavras emprestadas e pouco cuidado ou investimento autêntico na exposição dos nossos pontos de vista... proponho mais adultas e adultos brincantes, para que através da visão lúdica possamos, quem sabe, reencontrar caminhos de expressão do medo, e melhoria na administração dos afetos presentes nas nossas palavras, pensamentos e ações. Brincar é treinar pra vida, e isso há de contribuir para melhores relações, viu. Eu acredito. Mesmo quando há tanta dor e desgoverno por aqui, e quem sabe principalmente agora, eu acredito.






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