O Pendurado: sete de paus, dez de paus e seis de copas


A primeira coisa que aprendi com o Pendurado (acá enforcado, mas convenhamos que isso não é uma forca) foi que toda trajetória implica em algum sacrifício. Nessa etapa da jornada o Louco aprende que, ora pois, ofício sagrado tem algo a ver com seguir o que a Vontade do coração manda, a ética interior exige, o que Alá recomenda, seja lá qual for o eixo que sustenta os valores que lhe são caros. E muitas vezes, é preciso fazer isso ainda que as circunstâncias exteriores se mostrem desafiadoras, restritivas, punitivas. Ensina também a vivenciar com relativa serenidade (semente boa pra nascer discernimento) o lugar desconfortável de quem submete a sua fagulha, a centelha da sua vontade, ao mundo e seus perigos, recôncavos do desconhecido. Quem aí dá conta de experimentar uma pacífica água parada interior, mesmo nas circunstâncias mais incômodas? Nem sempre sustentar desconforto é a saída, claro que não. Mas aqui, na companhia dessa carta, parece a saída pra germinar uma Saída maiúscula, definitiva.


Exercer a nossa verdadeira vontade, sustentá-la na dor, escolher quando debatê-la para transformá-la para melhor, ou quando defendê-la dos ataques da ignorância própria e alheia... não é brinquedo não. Ou é. Brinquedo de gente grande, sedenta da aventura de espalhar seu próprio ponto de vista pelo mundo, “que vença a minha centelha”, pensamos. Quanto vale essa diversão na nossa fogueira das vaidades? E quanto nos custa? Já adianto que acho essa resposta um trem muito particular.


Há quem curta a fogueira, queira mesmo é ver o circo pegar fogo. E tá tudo certo para quem o(a) queira acompanhar. E há quem encontre no confronto de ideias o ambiente desportivo da competição sadia, que engrandece porque expõe falhas e méritos, puta exercício bom de autoconhecimento inclusive. Se tivermos olhos pra ver. Se a ferida narcísica não for tão grande; se o medo de ser falho(a) não estiver gordo e farto e acima de qualquer suspeita, fantasiado de vítima ou de agressor... então haverá esperança.


Haverá a esperança da nostalgia infantil dos amores ingênuos, lembrar de uma época em que era possível discordar e ainda assim dialogar, brigar de bater para em seguida brincar junto de novo, coisa de criança. Quando não havia tanto engessamento de opiniões, polarização e cagação de regra mesmo, se é que esse mundo fantástico um dia existiu, para além dos nossos olhos pueris. “Saudade do que a gente ainda nem viveu”, diria o Neymar.


Toda a capacidade crítica da(o) adulta(o) em nós é necessária e útil, como também o é a generosidade com o próximo encontrada em muitas crianças, a habilidade de divergir em ideias não deixando de ser irmãos e irmãs, coabitantes querendo ou não desta mesma Terra. Somos convivas num banquete já meio escasso, que precisam mais do que tudo dialogar, negociar existências, abrir-se às diferenças, não tanto por ética ou new-agezismo (por mais colorido e fofo que esse movimento seja), mas principalmente por inteligência mesmo, por um reconhecimento de que o barco-humanidade é um só, e olha... tá cheio de buraco no casco.


O sacrifício que muitas vezes me vejo tendo que fazer é o das bandeiras e ideais que eu carregava ontem, das ideias e julgamentos que nutri até antes dessa nova pessoa, desse novo cenário, desse novo ponto de vista, desse novo livro... cada novo conhecimento adquirido tem seu preço, e muitas vezes o preço é o sacrifício daquela antiga forma de ver o mundo. Para não acabar como o dez de paus, soterrada por obsoletas bandeiras que eu só carregue por orgulho, e não por convicção, só vejo aqui um caminho: dar o braço a torcer, rever escolhas, admitir-me tantas vezes errada e ignorante. Sinto que esse pode ser um aprendizado importante para, aos poucos, diminuirmos no mundo o poder dessa ilusão boba, a de que as coisas têm só dois lados, o da mocinha e o da bandida. E de que é preciso estar do lado bom a todo custo.


Porque olha... ô bobajada cafona, te contar viu. Graças aos deuses, o mundo real é bem mais complexo que isso.

Minas Gerais, Brasil

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