Mas e a Arte e a Cartomancia?


E o "volto amanhã" virou três dias, sinto muito. Ainda estou me adaptando à nova rotina de escrever por aqui. Acredito que teremos uma frequência de dois textos por semana, mas por enquanto é só um palpite. Além disso, dia 28 foi meu aniversário, e nesses últimos dias andei atenta às coisas que quero finalizar, para começar um ciclo novo que seja, de fato, renovado.

No primeiro texto, sugeri uma prática de atenção e registro dos dias, ciclos lunares e solares, com o objetivo de compartilhar com vocês a percepção que tenho de que tudo pode ser Magia; tudo pode ser espiritual, ritualístico, e isso não significa tornar-se um tilelê afastadx do cotidiano e suas realizações materiais, o tal dia-a-dia.

Não gosto dessa expressão, sabe. A repetição de "dia" a "dia" me passa uma sensação de "mais do mesmo", um tempo que tediosamente passa. Para mim, tornar TUDO Magia faz com que a vida torne-se algo profundamente interessante de ser compreendido e direcionado, em benefício de algo que se quer ver existir no mundo. Porém, não só. E aí entra em cena o conceito de Arte.

Você já tentou compreender a crítica especializada de Arte? Sabe quais os parâmetros que xs ajudam a definir quais as melhores obras, as mais famosas, mais valiosas? Até onde sei, tais parâmetros são muitas vezes subjetivos, ou baseados em critérios por demais passageiros, situacionais, para poderem ser considerados definitivos. Arte é Arte porque expressa uma consciência no mundo, e sua forma de expressar-se afeta aquelx que a recebe. Afeta, do verbo afetar, gerar afeto. Sendo assim, não cabe definir definitivamente (isso mesmo) se a sua criação é melhor que a minha, ainda que ela possa ser mais adequada a um contexto, um propósito, uma linguagem.

Voltemos então à Magia e a como ela permite que nos percebamos como co-criadorxs da realidade que experimentamos, por ser capaz de acelerar causas e efeitos, bem como a experiência de outras das leis naturais que regem as relações da trama da Grande Mãe. Ao mesmo tempo em que isso é real, é também real que somos todxs artistas, artífices do nosso destino, igualmente magxs potenciais, cujas Artes são portanto igualmente legítimas, num mundo ideal.

E o que é a sua Arte, você sabe? Caso não tenha clareza, os exercícios que propus no texto anterior podem ajudar. Afinal, a sua Arte está espalhada como pozinho fino em tudo o que você faz; permeia suas emoções, vontades e inspirações. Ela (ou a negação dela, forças de potência infinitamente a mesma, apenas repousando em polaridades distintas) te faz levantar da cama todos os dias, relacionar-se consigo e com os outros, tentar outra vez. A sua Arte, sua forma de expressar deu um jeito inédito a consciência cósmica inerente a tudo o que Há, receba ela o nome que receber: Grande Mãe, Deus, Olorum, Alá, Jeová, Ahura Mazda...

Encontrar de forma permanente essa Arte polvilhando a sua realidade, dando um tom seu, um cheiro seu, uma forma sua a tudo o que faz (de forma permanente eu disse, não pontualmente através de ritos religiosos ou enteogenia ocasional) provavelmente será um dos momentos mais maravilhosos e mais dolorosos com os quais você se deparará na vida. Ao menos tem sido assim para mim. Viver a cada segundo a responsabilidade por ser quem se É no mundo; experimentar essa condição através de cada poro e sustentar sem distrair-se das causas e consequências, pelo máximo de tempo possível ("permanecer despertx"), é fonte cristalina de amores e dores e vidas e mortes que olha... Crua realidade, dirá a bruxa na cabana no meio da floresta.

E evocando a bruxa no meio da floresta, chegamos à Cartomancia, expressão possível da minha Arte. Digo isso para não corrermos o risco de associar a Arte de alguém ao exercício de uma profissão específica, ou uma forma específica de agir no mundo. Não... a sua Arte é muito mais que isso. Vou tentar uma metáfora melhor que "está polvilhada em tudo o que você É", mas ainda não consegui. É inefável o trem. Contudo, posso mais uma vez oferecer um exemplo pessoal, para ajudar a captar a ideia.

Quando eu era criança, passava longas tardes silenciosas com a minha avó, depois da escola. Eu entrava na biblioteca da minha tia e lia bastante, até dar a hora do lanche da tarde. Eu gostava em especial de enciclopédias e de uns encartes de vinil de música clássica, porque vinham ilustrados por pinturas famosas da História da Arte. Isso porque eu tinha o hábito de me transportar para dentro dessas imagens e passar horas por lá vivendo histórias, como se eu mesma fosse uma das minúsculas personagens, quando as havia. Ou então, uma humana intrusa numa inexplorada floresta ou noutra qualquer cena inabitada. Imaginação sempre foi meu forte. Mais que isso, minha fortaleza. Em especial, essa imaginação estimulada por imagens, símbolos, desenhos e pinturas.

Anos mais tarde, vocês devem imaginar a minha surpresa quando descobri que a capacidade de extrapolar o sentido imediato de imagens, símbolos, desenhos e pinturas seria a porta de entrada para o mundo da cartomancia? Digo porta de entrada, claro, porque é uma faculdade que facilita o trabalho, mas está longe de fazê-lo por completo. É como ter olhos muito bons para a leitura: não é só por tê-los que serei literata, intelectual. Há que se ler, ô se há.

A Cartomancia, essa conversa entre emblemas, símbolos, tempo, espaço, sincronicidade... afinal, porque você tirou essa carta ao falar desse assunto, e não qualquer outra? Por que esta, aqui, agora? Não sendo você alguém que opta pelo culto ao Acaso, é possível que a Cartomancia, ou algum outro sistema estruturado de interpretação da realidade, possa ser um companheiro de jornada muito esclarecedor. Uma Arte cujx real protagonista é x cartomante, uma vez que o ouro da história toda é a sua capacidade de compreender o sistema escolhido, bem como a sua bagagem simbólica, artística, histórica, cultural... tudo isso determinará o nível de refinamento da Arte.

Alguns poderão perguntar: mas e as leituras de cartas feitas em ambiente religioso, auxiliadas portanto por entidades e guias espirituais, como tantas vezes vemos acontecer aqui no Brasil? Sobre isso, eu nada tenho a dizer, e de forma alguma tenho interesse em deslegitimar essas práticas. Só não conheço mesmo, e acredito que as diretrizes que se aplicam a esse tipo de Cartomancia não precisam coincidir com essas que compartilho com vocês por aqui. Meu trabalho envolve a Cartomancia enquanto ferramenta de autoconhecimento e autoaprimoramento, que investiga o progresso das causas e efeitos em nossas vidas; para isso, ele pede a presença mais atenta, mais consciente possível dxs envolvidxs, não cabendo incorporações ou práticas semelhantes. Cada prática em seu lugar, e tem espaço para todo mundo!

Meu desejo então, enquanto estudiosa e praticante da relação mágica do ser humano com a realidade que o cerca, é compartilhar aqui vivências do que vem a ser Magia, Arte e Cartomancia aqui do meu ponto de vista, e já adianto que sem muito academicismo. Claro que recorrerei à sugestão de bibliografia que me sirva de referência sobre os temas, para o caso de vocês quererem ler também e tirarem as próprias conclusões. Esse lugar de mediadora de conteúdos para outras pessoas sempre foi sensível pra mim, sabe: gosto de deixar claro que não é porque sou eloquente (nem sempre, mas enfim) que tenho todas as verdades, ou muitas verdades...

...na maior parte das vezes carrego no bolso mesmo só umas verdades meio impermanentes, à espera de um belo argumento que as desestabilize mais uma vez, para assim começarmos a criar tudo de novo. Poética da Relação isso, diz Glissant. Ainda bem.

Minas Gerais, Brasil

  • Instagram

©2020 por Oásis Aflora, criado com Wix.com