A Força: nove, oito e sete de paus


"The Wild Unknown Tarot", da artista Kim Krans.

É força que chama (em inglês Strength), essa habilidade que nós temos de domar a fera interior de todos os desejos, em prol da convivência, de objetivos traçados, de compromissos assumidos ou mesmo de uma ética íntima. No dia-a-dia das relações humanas, é saudável saber fluir entre as próprias pulsões e as de outrem, ou entre a possibilidade de saciá-las no momento presente ou em hora mais oportuna, de acordo com os objetivos que se tem. É força o desenvolvimento dessa habilidade: desenvolvê-la ao ponto de torná-la fluida na vida cotidiana, de não morrer na dor das privações nem desatinar no prazer das fruições. Força pura, que doma o leão das vontades e mede com precisão mezzo altruísta, mezzo analítica, a intensidade da mordida que apenas sustenta a delicada haste da rosa na boca. Ela não cai, mas também não é esmagada pelo peso dos dentes que tudo devorariam, se fosse essa a Vontade.


À luz solar da consciência que o encima, esse leão humanizado entende que a necessidade de negociação das condições para expressão do que fazer, e do como fazer, em cada contexto, em cada relação, se estenderá infinitamente no tempo e no espaço, enquanto existirmos. Abdicar disso seria o mesmo que abdicar da própria consciência, livre-arbítrio, poder de decisão que todxs temos em qualquer cenário ao qual estejamos expostos, ou em qualquer relação na qual estejamos envolvidos. Com o grande poder da consciência de si, estamos carecas de saber, vem a agreste responsabilidade que temos sobre tudo aquilo que escolhemos fazer no mundo, ou como optamos por expressar fora de nós aquilo que nos vai dentro.


Vejamos então como funciona na prática, nós que partilhamos desse crepúsculo anunciado de 2020: tudo começa quando a escada para uma realização qualquer parece longa demais, íngreme demais, para que possamos realizá-la sozinhxs. Coloque aqui um exemplo daquilo que você gostaria muito de fazer, a melhor ideia que já teve, mas que para execução real precisaria do empenho de mais braços e cérebros que os seus próprios. Por vezes, essa sensação frente ao tamanho do empreendimento turva nossa capacidade de ação, nos leva em cheio para a experiência lunar de acessar a intimidade dos nossos traumas, neuroses, visitar quartos trancados no porão da alma. A sensação infantil, e tão marcada na memória, de impotência, dependência, de ser pequenx entre supostos gigantes.


Nesse instante, é como se um raio atingisse em cheio toda a ordem estabelecida. Em meio ao sofrimento e à ansiedade surge uma palavra amiga, um conselho bem dado, ou a atitude de uma criança no parquinho, enfim, qualquer efeito no mundo cuja causa não é você, mas que te inspira e, com a força de uma súbita consciência vinda não se sabe de onde (há quem chame intuição, aliás), o que antes era limitação passa a ser visto como oportunidade. A necessidade de mais gente torna-se o convite à fraternidade, à possibilidade de lapidar a si mesmx com a contribuição de pontos de vista diferentes, que às vezes serão simpáticos e outras vezes antipáticos. De que importa? O arco-íris das possibilidades de ser humano não excluiria cor alguma só porque ela não te agrada, não é mesmo? Isso é Natureza.


É neste ponto que se acende aqui a luz de uma nova ideia, vocês me perdoem. Com certeza isso mudará bastante os rumos do texto que eu tinha em mente, e provavelmente o final já será outro. Peço então que considerem o que vem a seguir como um desses raios que caem na vida da gente, pronto.


Acho que em algum ponto da história recente, eu e as pessoas do meu entorno desaprendemos a esperar pelo gozo, a sustentar o hiato entre o dar e o receber. Qual seria o oposto de amadurecer? É bem por aí que meu pensamento está indo. Cada vez temos mais estímulos à independência e ao isolamento, perceba. Quem antes ouvia rádio aguardando ansiosamente entre as músicas e comerciais por aquela música específica, para gravar na fita cassete ou apenas curtir o momento, hoje repete a música até babar numa lista exclusiva de canções do seu agrado.


As redes sociais seguem distanciando nosso leão interior do aprendizado necessário para fazer parte da polis: aquele que diz que pertencer também é ceder. A espera pela música querida tornou-se no máximo uns intoleráveis segundos antes de pular o anúncio do YouTube; via WhatsApp ou Telegram as pessoas parecem estar acessíveis o tempo todo, com a rapidez de um dedinho. Se não estamos atentxs, diminui a cada dia nossa abertura para ceder um pouquinho para que o outro ceda um pouquinho, para estabelecer contratos sociais conscientes. Afinal, num contexto de produtos perecíveis e facilmente substituíveis por versões mais modernas, mais adaptadas ao nosso conforto, as relações podem tender à mesma lógica, e serem entendidas como produtos. Resumindo: o atrito que a vida proporciona ao corpo celeste que somos anda cada vez mais escasso, deixando-nos mais suscetíveis à força com que nos puxa para o buraco negro do narcisismo, da intolerância, da falta de abertura para dialogar com quem pensa diferente... do achismo que vira certezismo e por aí vai.


Num contexto assim, o sonho dourado passa a ser o de alcançar um "estado de paz", que pra mim tem um quê de ingenuidade e uma pitada de tirania, como se pudéssemos com uma boa ideia apagar as fomes criativas dos leões que temos dentro. Um propósito mais adequado ao uso sábio da consciência, na minha leitura, seria o de alcançar um espaço de negociações das diferenças que promova o máximo possível de bem-estar coletivo, sem com isso ferir de morte as individualidades que o compõem. Só que, para isso, a autoconsciência em contínua expansão é fundamental: sem ela, sem um espaço interior de escuta de si mesmx, facilmente tornamos a nos permitir os enganos no caminho do "tudo posso, mas nem tudo me convém".


O que tenho poder de fazer? Dentro disso, o que de fato convém fazer nesta situação, com estas pessoas? Perguntas como essas pedem respostas diariamente atualizadas, dadas por nós como um resultado que está entre a auto-observação e a digestão do que outros observam em nós, das condições oferecidas pelo mundo ao redor. Por isso a tal meditação é tão bacana. Minha avó chamava de "hora de pensar na vida"... bom, chame como quiser. Mais que de uma boa dicção e fala, o que de fato nossa alma precisa para se expressar verdadeiramente no mundo talvez seja uma boa escuta. Não como quem escuta a própria playlist apenas... mas também como quem ouve o rádio, aquele senhor que tocava as músicas preferidas de um tanto de gente.

Minas Gerais, Brasil

  • Instagram

©2020 por Oásis Aflora, criado com Wix.com